Blog Paulo Castelo Branco

SALVA-VIDAS

Há serviços prestados pelos governos que enchem de orgulho os cidadãos cansados de tanto reclamar da falta de transporte, do excesso de impostos, da educação insuficiente, da precária rede pública de atendimento à saúde e da eterna insegurança.

Sábado passado, iniciou-se a exitosa campanha da vacinação contra a gripe que livra crianças e anciãos não só da doença contagiosa, como também  de outras consequências graves, como a pneumonia. A população, de modo geral, dá pouca importância para a gripe. No entanto, além dos prejuízos à saúde, ela é responsável por grande parte das faltas ao trabalho.

Pois no primeiro dia da vacinação, este ancião contador de histórias, deixou de lado as mazelas políticas que estão nos matando afogados e se postou na fila para receber a espetadela e a bendita vacina.

No eficiente e organizado posto de saúde da QI 21 do Lago Sul, dei de cara com uma diaba vestida de vermelho e empunhando um tridente. Não me assustei, pois tenho a certeza de que não irei para os quintos do inferno; no máximo, passarei uma temporada no purgatório pagando penas por críticas que faço, sempre com as melhores das intenções.

A tal da diaba era uma dedicada enfermeira, representando a assassina silenciosa que mata milhares de pessoas descuidadas com a saúde: a hipertensão arterial. A diaba e suas colegas mediam a pressão das pessoas, orientavam procedimentos preventivos e distribuíam folhetos em quadrinhos divertidos e bem elaborados.

Segui o roteiro e confirmei o meu 12 por 8, símbolo da campanha. Fui para fila e recebi o a senha 36. Abro ,aqui, parêntese para contar uma história também engraçada que ouvi de um velho amigo que ficou com a senha 37 e que, por algum tempo, me daria o prazer forçado da sua companhia. Quando a diaba apurava uma pressão como a minha, ela fazia uma festa, e o 37 se lembrou de uma história lá das Minas Gerais, disse ele: – Um sujeito comprou uma bela camionete 4x4 para usar entre Dores do Indaiá e São Gotardo.  O veículo brilhava, parado à frente da igreja matriz. O fazendeiro ia almoçar e, quando voltava, encontrava a traseira do carro arranhado. Um pilantra qualquer, riscava, com um prego, após o 4x4, um sinal de = seguido do número 16. Irritado, o fazendeiro ia direto para a oficina e mandava reparar o dano.

Cansado do prejuízo, o fazendeiro mandou confeccionar um reluzente símbolo do sinal = e o número 16.  Pela manhã, deixou a camionete no estacionamento e, à tarde, quando foi pegar o carro, lá estava, bem cravado na lataria, o sinal de certo – no melhor estilo check –  completando a multiplicação de 4 x4 = 16.

Quando a anedota acabou, a locutora chamava o número 20. Eu e o meu amigo ficamos observando os conhecidos que envelheceram ao mesmo tempo que a gente. Ali estava o jovem que fazia o som das festas de crianças, e, que hoje, é um senhor precisando cuidar da pressão. Estava, também, um obstetra que colocou no mundo centenas de brasilienses e que segue firme sem gripe ou problemas graves. Cumprimentamos o político aposentado que passou pela vida pública com respeito e admiração. Não tinha aparência de viver com dificuldades, ao contrário, parecia feliz por ter se dedicado por tantos anos à vida pública. – Eram outros tempos, disse o meu amigo.

O 34, sorrindo, entrou na conversa: – Quando será que a medicina vai descobrir vacinas contra a corrupção e os malfeitos? Ninguém sabia responder.

Irmã Edwirges, que passou mais de quarenta anos dando aulas de catecismo na nossa paróquia, passou por nós, vestida no seu impecável hábito branco como neve, como diziam as crianças. Chegou a minha vez. Recebi a minha dose, e o meu amigo lembrou: – Se for dirigir, não beba.

No portão, recebi a letra de uma paródia do célebre hino “Prá frente Brasil” de Miguel Gustavo que animava o povo e a seleção brasileira de 1970 e que diz: “São 30 milhões de hipertensos/em todo Brasil/do meu coração/Todos juntos vamos/prá frente Brasil/ controlar a pressão/De repente é aquela corrente prá frente/dieta e exercício entrando em ação/todos tomando sua medicação/cuidando do seu coração/ Todos juntos vamos/prá frente Brasil, Brasil/controlar a pressão.

Fiquei despreocupado com relação à Copa do Mundo de 2014; com a atenção que recebi no posto de saúde, tenho fé que estarei nos estádios com muita saúde e energia. Aliás, na despedida a diaba me disse: – Vá com Deus! Ps.: A fotografia da diaba está no meu Instagram.

Brasília, 06 de maio de 2012.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na Revista Brasília em Dia – 11.05.2012 – www.brasiliaemdia.com.br

DE LÍNGUA PARA FORA

No início era um pequeno grupo de pessoas. Traziam faixas empunhando faixas em branco e cantavam hinos cívicos. À frente, uma jovem  acompanhada do seu namorado, pelo menos pareciam namorados, pois, vez ou outra, trocavam bitoquinhas e algumas discretas carícias.

Depois de caminhar por cerca de cem metros,  se juntou ao grupo vários e várias professores e professoras. Estes carregavam suas faixas e usavam megafones para reclamar de tudo. Nenhum deles usava palavras de baixo-calão ou gritos histéricos. Só caminhavam e reivindicavam melhorias no ensino e o fim da corrupção em concursos públicos.

Os e as manifestantes faziam breves paradas para arregimentar mais pessoas para a caminhada. As garis e os garis suspenderam a limpeza das largas avenidas e engrossaram o grupo. Os policiais e as policiais, dispostos e dispostas estrategicamente nas proximidades do movimento, recolocaram os cassetetes na cinta e decidiram, em rápida reunião, que fariam como os militares portugueses e as militares portuguesas,   colocando-se  ao lado do povo contra qualquer coisa.

Advogados e advogadas, de mão dadas,  entoando o Hino Nacional, com seus diplomas retificados no gênero, surgiram de uma avenida lateral.  Uma ambulância parou no estacionamento ,  e dela saíram o motorista, o enfermeiro, enfermeira, um médico e uma médica, um paciente e uma pacienta. Os dois últimos carregavam soro nas mãos.

Estudantes e estudantas das escolas públicas e privadas confraternizaram com os professores e as professoras que não viam desde o ano letivo passado. Foi uma festa. É verdade que alguns e algumas estavam mais gordos/as, bronzeados/as, cabelos desgrenhados e com roupas rotas, mas estavam felizes em reencontrar os alunos e as alunas. Valeu! Gritavam em uníssono.

Artistas e artistos de artes cênicas chegaram em ônibus fretado pelo Ministério da Cultura. Fizeram discursos lindos e fortes. Músicos e músicas se confundiram com as pessoas e os pessoos comuns. Pareciam que faziam parte de uma mesma orquestra.

Lá pelas cinco horas da tarde, a manifestação, segundo os organizadores e organizadoras, já contava com a participação de mais de cem mil participantes e participantas. Os órgãos de segurança avaliaram que entre mil e noventa e nove mil pessoas e pessoos faziam parte da passeata. – Está tudo sob controle,  e nenhum incidente foi registrado, disse uma coronela, fardada, coberta de galões e insígnias. As jornalistas e os jornalistos gravaram as declarações em suas máquinas eletrônicas, e as enviaram  para os órgãos de imprensa. Foi tudo para o ar.

Um apresentador e uma apresentadora de jornal televisivo mostravam e comentavam as imagens “ao vivo” da “maior manifestação jamais vista em todo País, desde o impeachment  do presidente”. O povo exultou com a lembrança do inusitado fato já quase esquecido.

A noite chegou . Trabalhadores e trabalhadoras que cumpriram seus horários de serviço engrossaram a manifestação. As/Os autoridades, preocupadas e preocupados   com a possibilidade das movimentações se descolarem em massa  para as proximidades do Ministério da Educação, decidiram encontrar os líderes e as líderes para negociarem  o fim do evento. Articuladores e articuladoras se misturaram entre as pessoas e os pessoos em busca do objetivo. Não havia ninguém que pudesse ser identificado como líder.

No meio da madrugada a multidão se deslocou em direção ao palácio presidencial. Forças policiais se postaram nas vias de acesso à praça. A multidão ultrapassou pacificamente a barreira e seguiu até ao parlatório. Não houve reação. Todos e todas puderam falar. Homens, mulheres, meninas e meninos, homos/as, emos/as, guitarristas/os, cornos/as, ladrões/ladras, jogadores e jogadoras, bichos e bichas se sucediam no megafone. A multidão aplaudia.

Do governo não apareceu ninguém para falar. Ao final de uma semana, um porta-voz pediu a palavra e disse: – Estamos cansados e sem saber o motivo dessa estranha manifestação, na qual ninguém reclama do governo, mas dão a impressão de que não estão satisfeitos ou satisfeitas.  O que vocês querem, afinal? O povo respondeu: – Idiotos!!!

Brasília, 30 de abril de 2012.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na revista Brasília em Dia – 05.05.2012 – www.brasiliaemdia.com.br

VIZINHANÇA

A casa branca se destacava na rua. Ocupava dois lotes da região valorizada. Nela não se ouvia risadas de crianças, latidos ou miados. Seus moradores quase não eram vistos. Discretos e elegantes passavam quase despercebidos pelos vizinhos.

Sabia-se que o homem era diplomata com passagem em embaixadas de vários países. Sobre a mulher, ninguém sabia nada. Cumprimentos formais acompanhados de sorrisos quase imperceptíveis. Diziam que o homem fora muito importante e que possuía vasta cultura e escrevia artigos sobre assuntos internacionais em jornais de grande circulação.

Certo dia, fui convidado a conversar com o vizinho. Curioso; aceitei ao convite. A esposa me recebeu à porta e foi anunciar a minha presença. Passei os olhos pela sala de imenso pé- direito. Móveis coloniais e tapetes orientais mostravam o bom gosto dos moradores.

Nas paredes, obras de renomados pintores. Sobre os móveis, esculturas de rara beleza. A senhora voltou e acompanhou-me até ao escritório do marido. O embaixador estava sentado numa poltrona de couro por trás da mesa de trabalho. Alegou estar com dificuldades de locomoção e estendeu-me a mão sem se levantar. Notei a sua dificuldade e facilitei a troca de cumprimentos.

Em volta da mesa, bengalas, um umidificador e uma lâmpada acesa num abajur sofisticado. Meu anfitrião estava lendo um exemplar em inglês de “A Montanha Mágica”. – O senhor já leu esta obra? Respondi que a havia lido na juventude e que mantinha um exemplar sempre disponível para oferecer a algum jovem que se interessasse por literatura. O embaixador sorriu e dirigiu-me uma série de perguntas sobre a minha vida. Fui respondendo as perguntas com a curiosidade de quem também queria saber algo mais sobre o interlocutor.

Após a saraivada de questionamentos, pude perguntar ao embaixador sobre a sua vida. Era um mundo de histórias. Em suas funções, o diplomata sempre procurou ocupar postos de sacrifício. Dizia ele que só assim poderia melhor compreender a humanidade. Ficamos horas nessa conversa que parecia ser a primeira de muitas outras.

O que eu esperava não se concretizou. O embaixador adoeceu e foi internado em São Paulo, de onde não mais saiu.

A casa branca que parecia vazia em seu silêncio, agora, o era realmente. Há poucos dias soube que a família, quase nunca vista, havia vendido o imóvel. A casa ficou durante alguns meses sendo mantida por um caseiro que cortava a grama e mantinha a sensação de que alguém poderia voltar a ocupá-la.

Dia desses, ao sair para o trabalho, vi um caminhão com operários estacionar a frente da casa. – Finalmente uma família deverá se mudar para cá e, quem sabe, não terão crianças, cães, gatos, pássaros, bicicletas e muita algazarra para alegrar a minha rua, pensei. Fui embora com a certeza de que, quando voltasse, a casa já estaria com outro aspecto; viva, respirando.

O que vi deixou-me perplexo. A casa estava sendo demolida. Operários eficientes e sem emoções já haviam retirado a charmosa porta de demolição e as janelas. Outros retiravam telhas, tão rapidamente, que pareciam tornados americanos. Durante a semana, só restou a estrutura da bela residência. Dizem que o novo proprietário fará duas casas modernas no local. Acho que Brasília está mudando fora do seu tempo; ou do meu.

Brasília, 08 de abril de 2012.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na revista FOCO de maio de 2012.

QUE BICHO VAI DAR?

Até o rei da Espanha apareceu nas notícias que circulam, há dias, sobre o jogo do bicho. O caso do rei é isolado e ocorrido lá nos cafundós da África, mas deu o que falar, pois o ilustre caçador, além de abater um imenso elefante, vinha, também, abatendo uma lebre germânica e, igualmente, nobre.

Por aqui, as coisas estão mais para Arca de Noé, em virtude das águas que estão nos afogando. O jogo do bicho foi criado pelo Barão de Drummond, que possuía um Jardim Zoológico em Vila Izabel, no Rio de Janeiro. O visitante, ao comprar seu ingresso, o recebia com o desenho de um bicho. Ao final do dia, o barão fazia um sorteio, e aqueles que possuíam o bicho do dia, recebiam um prêmio em dinheiro. A ideia foi um sucesso e salvou o barão da falência.

Os bichos eram poucos dentre as várias espécies; a conferir: 01 Avestruz, 02 Águia, 03 Burro, 04 Borboleta, 05 Cachorro, 06 Cabra, 07 Carneiro, 08 Camelo, 09 Cobra, 10 Coelho, 11 Cavalo, 12 Elefante, 13 Galo, 14 Gato, 15 Jacaré, 16 Leão, 17 Macaco, 18 Porco, 19 Pavão, 20 Peru, 21 Touro, 22 Tigre, 23 Urso, 24 Veado, 25 Vaca.

Como se vê, o Jardim Zoológico do Barão de Drummond estava mais para terreiro de fazenda, do que para o que hoje se conhece como Zoo. A presença do burro, da borboleta, do cachorro, da cabra, do coelho, do galo, do gato, do porco, do peru e da vaca reforça o argumento, e demonstra que, na verdade, as feras que hoje andam por aí estão sendo injustamente apontadas como participantes de malfeitos.

A onça verdadeira, pois que não pintada, que vagou nas proximidades do Congresso Nacional, não está descrita no rol do jogo o que é uma injustiça com a bela espécie, pois o que mais existe naquela instituição são os amigos da onça. Esses amigos, com o pretexto de apurar gatunagem do dinheiro público, estão se transformando em leões em defesa dos cofres abarrotados do Tesouro Nacional. A caçada já começou, e veremos jacarés nadando de costas e muito pavão se escondendo para não deixar o rabo preso e vistoso estampado nas manchetes dos jornais.

Avestruz é o não faltará durante as discussões para verificar quem é quem, apesar de estarem, os avestruzes, de modo geral, com a cabeça enfiada em buracos profundos. Burro, será difícil identificar, pois, naquela selva, não há ninguém que possa ser assim classificado. Por outro lado, não esquecer os veados; bichos lépidos e inteligentes vivem em manadas e se fortalecem para enfrentar tigres de papel que rugem forte, mas, na hora H, correm para não ser comidos. Os tigres não fazem muito sucesso nessa disputa por espaço.

E o porco? Vive chafurdando na lama que ele próprio cria e sai enlameando reputações. São os porcos os mais disfarçados de todos os animais. Nas propagandas, surgem limpinhos e rosados prometendo embutidos de alta qualidade; no entanto, ninguém sabe como são feitas as salsichas que os mostram moídos, nem a razão de serem servidos com uma maça ou, quem sabe, na falta dela, com uma laranja na boca.

As cobras são as mais perigosas. A Naja, com o seu porte elegante, encanta a todos à sua volta e escolhe a vítima com golpe certeiro. A Cascavel chega rastejando e aplica o seu golpe fatal numa fração de segundo, e é raro ser capturada numa ação de especialistas.

Já o cabrito é um dos mais interessantes. Quando descoberto praticando atos delituosos, disfarça e sai de fininho. Não berra! Ao contrário de seu parente, o carneiro; este parece manso, e está sempre disposto a encobrir alguém com a sua lã fofa.

O camelo é especial e pode, com sua paciência, ocupar qualquer espaço inóspito.  Suporta dias sem se alimentar ou beber água. É um verdadeiro guardião; no bom sentido.

Em momentos tensos, é fácil perceber quem são os coelhos. Basta tocar uma campainha que eles saem rápido do terreiro para não serem atacados pelos gaviões que rondam as concentrações de outros bichos. Gavião é perigosíssimo, pois é bem conceituado e, do alto, olha tudo com melhor visão.

No jogo do Barão de Drummond não havia tanto espaço como na Arca de Noé, mas, na nossa selva, outros bichos marcarão presença e poderão causar muitos embaraços, tais como os pintinhos que ainda não saíram da casca, os Louva-Deus, as baratas, os cupins e, finalmente, os tubarões; estes sim, os mais perigosos nas águas que irão rolar, levando muitas cabeças.

Brasília, 23 de abril de 2012.

Paulo Castelo Branco

Publicado na revista Brasília em Dia – 27.04.2012 – www.brasiliaemdia.com.br

RETOMADA

É tiroteio em terra de cego. O brasiliense não sai de casa, ou precisa de tantos cuidados para não ser morto ou assaltado, que até já perdeu a alegria e a tranquilidade de viver por aqui. Às autoridades, perplexas com a violência e a criminalidade, restou alertar a população para que não reaja, em nenhuma hipótese, à abordagem de criminosos. Os bandidos, deitados em seus sofás, assistindo aos programas de televisão ou ouvindo os das rádios, esperam o momento adequado para atacar. Sabendo que a polícia faz operação-tartaruga,  eles montam em motocicletas roubadas e, em operação-coelho, agem como um relâmpago e matam dois coelhos com uma cajadada só: Assaltam e eliminam suas vítimas.

Anúncios institucionais comunicam a compra de milhares de veículos e a qualificação de 15.000 policiais militares, o que, na prática, significa que toda a força de combate ostensivo ao crime está nos bancos escolares,  adquirindo conhecimento para agir em 2014, época do grande evento mundial que poderá nos trazer de volta a Taça do Mundo, se esta não tiver sido roubada no dia da comemoração, como o foi a Jules Rimet em tempos menos violentos.

Políticos renomados são cooptados pelo crime como se fossem jovens infratores a serviço de traficantes de drogas. Talvez seja ingenuidade do político, mas, tudo indica,  que eles são preparados desde a juventude para a infiltração nos poderes constituídos. Quando assumem os mandatos ou as funções de estado, protegem criminosos e pagam suas dívidas. Um só discurso, uma decisão ou um projeto é suficiente para quitar débitos de longos anos.

Policiais também vivem se escondendo da ameaça constante de quadrilhas que se homiziam nas mesmas regiões em que vivem os agentes da lei. Inseguros e mal remunerados, policiais precisam complementar renda na segurança privada. Outros servidores públicos reclamam de que seus salários são menores do que os dos policiais, no entanto, sabem que só estes saem de casa com a missão de morrer, se preciso for, em defesa do cidadão.

Nas delegacias é comum serem encontrados jovens inexperientes no comando. Esses jovens, homens e mulheres, preparados exaustivamente por entidades de ensino, são aprovados em concursos públicos e, depois de um breve treinamento, recebem a titularidade das delegacias. Na prática, nunca viram um crime de verdade e, os não vocacionados, se abalam com a crueza da violência e da criminalidade. Nesses momentos,  é que percebem que combater o crime real é muito parecido com a brutalidade da ficção cinematográfica. É sangue para todos os lados e tanta frieza nos depoimentos,  que alguns se sensibilizam com as justificativas do criminoso.

Em países avançados, o ingresso nos órgãos de segurança pública é precedido de rigorosos exames psicológicos, testes vocacionais, investigação sobre a vida pregressa, período de preparação qualificada, exclusão por inaptidão e, por fim, atividades policiais nas ruas monitoradas por veteranos. A absorção de conhecimentos e os resultados conseguidos é que proporcionarão ao novato o desenvolvimento na profissão. Galgar postos de comando exigirá do policial profundo conhecimento da atividade, e conduta ilibada.

Os controles internos e a demissão sumária de policiais, envolvidos em crimes,  permitem  a infiltração de agentes em quadrilhas,  possibilitando o desbaratamento desses organismos criminosos. Policiais dependentes de drogas ilícitas são, obrigatoriamente, internados para tratamento. Se irrecuperáveis,  são afastados da atividade policial definitivamente.

Esses países avançados, detentores de equipamentos sofisticados para o combate ao crime e à violência, podem servir de parâmetro para as nossas polícias, inclusive no que se refere ao policiamento municipal, com eleição de candidatos “ficha-limpa” para o comando da segurança pública.

Todavia, mesmo com todo o aparato existente no mundo para garantir a tranquilidade e a vida dos cidadãos, ainda ocorrem erros primários nas ações policiais, como nos casos recentes de brasileiros inocentes mortos no exterior.

Garantir segurança à população não é tarefa fácil de ser executada, mas pode ser retomada com policia unificada, salários dignos, seguro de vida, equipamentos, moradia e respeito, além, é claro,  da manifestação dos vários segmentos da sociedade que exigem seus direitos, isoladamente, em grandes passeatas, e não exigem segurança pública.

Brasília, 16 de abril de 2012.

Paulo Castelo Branco

Publicado na Revista Brasilia em Dia – 20.04.2012 – www.brasiliaemdia.com.br

O DISTRITO É FEDERAL

Está na história que as grandes mudanças surgem pelas mãos dos que, aparentemente, nunca as fariam.

Brasília é palco de uma situação dessas. A mão forte da presidenta Dilma e as orientações de Lula indicam que o Partido dos Trabalhadores age para retomar as rédeas do poder político e administrativo do Distrito Federal.

A blindagem ao combalido e midiático governo Agnelo demonstra que o PT nacional decidiu que é melhor proteger o poder brasiliense para não deixar que o poder central sofra em seu próprio território com ondas de greves de trabalhadores remunerados com recursos federais.

A tragédia que nos atingiu com os fracassados governos de Arruda e Rosso nos deixaram sem opções de escolha e, como dizem muitos eleitores, a única candidata ficha-limpa era Weslian que, mesmo sem nunca ter sido candidata, levou a eleição para o segundo turno.

A sorte do governador foi a ajuda que o PMDB deu para que a eleição fosse bem sucedida. Agora, com a constatação que o novo caminho era velho, só restou à presidência intervir no GDF e colocar o poder nas mãos de pessoas da absoluta confiança do Partido dos Trabalhadores.

Não foi outro o motivo do retorno ao Palácio do Buriti do Berger. Assessor no Palácio do Planalto e com participação nas decisões mais importantes do governo Lula, Berger é, na verdade, o poder político federal. Nada será feito sem o aval de Dilma.

Outro nome forte na área federal é o do secretário Luiz Paulo Barreto. Ex-Ministro da Justiça, Barreto é profundo conhecedor dos problemas de Brasília. O secretário veio para planejar, e disso precisamos muito.

Mas, o que essas mudanças podem trazer para o bem estar do brasiliense? É sobre isso que quero tratar. Governos fortes e com grande aceitação popular, como é o da presidenta Dilma, mesmo tendo, ao longo da sua existência, combatido privatizações, contenção de despesas públicas, congelamento de salários e abusos contra cidadãos; quando na direção do país, constatam que o exercício do poder é mais complexo do que o discurso no palanque. Felizmente a nossa presidente não passou pela dura experiência de buscar votos em eleições proporcionais, e chegou à presidência ungida pela vontade única e exclusiva de Lula.

São esses fortes governos que podem privatizar aeroportos, portos, serviços e estradas. Podem, também, conter aumento de salários, demitir malfeitores, determinar silêncio e admitir barulho.

Governantes fortes aceitam indicações para postos importantes, mas, nos bastidores, colocam seus vigias, mantendo os nomeados sob tutela  pouco ou nada produzindo. Governantes firmes não se deixam abalar por bajulações e agem para fazer o que pretendiam desde a juventude, sem precisar dar um tiro sequer.

As pedras do tabuleiro de xadrez— com licença da má palavra — estão colocadas. O Governo Federal não havia movido uma só peça desde a posse de Agnelo. Ficou assistindo a artilharia pesada contra o governador. Os atiradores de elite não erraram o alvo. Denúncias desabaram como enxurrada na via EPTG. O governador, em xeque-mate, recebeu a mão salvadora do Planalto e aceitou a intervenção que lhe dá paz, com frequência, em refúgio portenho. Se omitindo, Agnelo poderá, literalmente, dançar.

Depois das eleições municipais, e dependendo do desempenho do Partido dos Trabalhadores, uma nova onda poderá invadir a Esplanada dos Ministérios: a federalização do Distrito Federal.

Para quem não acredita, é só olhar o momento político de Brasília: Vivemos, há anos, o descalabro da falta de planejamento, do descaso com a saúde pública, com a educação, com a segurança pública e com o desrespeito ao contribuinte.

Políticos com espírito público e desprendimento contam-se nos dedos. Na maioria são defensores de causas pessoais ou corporativas. O legislativo é uma fábrica de cabides de empregos e promessas vãs.

A oportunidade de retorno do Distrito Federal à administração federal não será combatida pela maioria dos políticos locais que estarão protegidos até o fim dos atuais mandatos; depois disputarão as oito vagas de deputados federais e as três de senadores. No Congresso Nacional, com certeza, a maioria não moveria uma palha para que Brasília continuasse autônoma, afinal, quem arca com a maior parte da despesa é o Governo Federal. Mudança é assim: quem não queria mudanças é quem pode mudar.

Brasília, 09 de abril de 2012.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na Revista Brasília em Dia – 13.04.2012 – www.brasiliaemdia.com.br

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